Estamos vivendo uma onda conservadora?
- Henrique dos Anjos
- 18 de ago. de 2015
- 6 min de leitura

São nesses momentos onde novos fenômenos reformistas ganham a cena na Europa que devemos estar atentos para agitação política, nossos sonhos e a formação que buscamos. O Podemos na Espanha e o Syriza na Grécia são exemplos de movimentos que sacudiram as lutas dos trabalhadores e a Esquerda em várias partes do mundo. O desenrolar da ascensão, principalmente, do Syriza, que tornou Alex Tsipras o primeiro-ministro grego, foi um terremoto até mesmo na Esquerda trotiskista, indagada na mais pura luta pela Revolução Socialista.
Muitos companheiros questionam honestamente se não há uma possibilidade de reproduzir o que aconteceu por lá, já que assistimos certa “popul[U1] aridade” de medidas reacionárias, abastardas via redes sociais, que ameaçariam qualquer tipo de organização que se intitulasse de Esquerda, pois essa seria imediatamente comparada com o PT. Até porque o PSOL saiu mais conhecido nas camadas populares da sociedade após as eleições e o mesmo tenta colar no calor grego, mas todos sabem que esse partido é muito pequeno no movimento sindical e operário. Dada à conjuntura, sempre me recordo do texto do professor Valério Arcary “É hora do sangue frio”, publicado no blog Convergência [1].
De fato se deixarmos tomar pelo calor do momento e um breve descuido todos estariam com uma bandeira do Syriza na mão. O marxismo não fala para fazermos isso. O nosso método de organização partidária já serve e muito para expormos o que pensamos e sentimos. Fazemos isso até a exaustão, para daí sim, começarmos a raciocinar sobre a realidade que nos cerca.
Vejamos, as manifestações do dia 15 de março e agora no 16 de agosto, são, sabemos, organizadas por grupos de Direita. Que colocam lenha na fogueira nos limites do campo político e ainda apoiam todas as medidas econômicas adotadas pelo governo Dilma (PT). Muito provável que suas medidas seriam mais perversas (o que parece impossível). A maioria da composição social dessas manifestações são eleitores de Aécio Neves que perderam a última eleição [2] e creem que todo mal provem de um único partido. “Esquecendo” que o ex-presidenciável Aécio Neves do PSDB, e demais simpatizantes da irracionalidade capitalista, como Ronaldo Caiado, Marco Feliciano, Jair Bolsonaro, Michel Temer, Eduardo Cunha, Renan Calheiros e um longo etc, construíram suas vidas dentro dessa mesma política, são todos corruptos e estão impunes de seus crimes e são, também[U2] , financiados pelas mesmas empresas que financiam campanhas milionárias do PT de Lula.
O problema, se é que podemos chamar assim, é que o “Fora Dilma” (construído nesses atos) está na boca dos trabalhadores assalariados e operários de norte a sul do país. Isso parece um fato que talvez mereça uma atenção e educação da classe que vai aderindo tal palavra de ordem, mas isso é muito discutível dentro de nossa organização. O que deve ser compreendido é que a classe trabalhadora, de forma ingênua, participará em certa medida das manifestações do dia 16 de agosto. Ela não fará isso por uma “onda conservadora” e sim por conta da crise econômica, do ajuste fiscal, das medidas provisórias que retiram direitos históricos, da possível terceirização total, do incrível aumento na conta de luz e nos combustíveis, contra a corrupção e pelas importantes lutas que vem travando contra governo e patrões. E nessa carruagem de ingenuidade, frente à organização dessas manifestações, a classe trabalhadora que aparecer também irá com a bandeira do Brasil na mão contra o PSDB, a direita e repudiando quem apoiar a volta Ditadura. Como se viu no 15 de março.
Muito provável que a grande maioria que sairá pelas ruas no domingo contra o governo Dilma e o PT (exclusivamente!) será as camadas médias da sociedade. E eles têm seus motivos. O plano de saúde ficou mais caro e o serviço é terrível, sentem medo e falta de segurança pela crescente criminalidade, os que conseguem pôr os filhos em escolas particulares sabem que a mensalidade aumentou, para satisfazerem seus luxos a rotina teve que mudar, muitos fizeram boas casas para pagar ao longo da vida pelo Minha Casa Minha Vida e o poder de compra diminuiu muito. Seria diferente se nos doze anos de PT ao invés de repassarem metade do orçamento para banqueiros tivessem investido pesado em educação, cultura, moradia, distribuição de renda, emprego e saúde. Infelizmente não foi esse o caminho e mesmo com uma forte crise o agronegócio projeta crescimento e bancos e grandes empresas batem recordes de lucro a cada mês.
Voltando a classe trabalhadora e as organizações que lutam por um terceiro campo, classista e independente, é dever de todos educar e explicar porque não devemos apoiar o 16 de agosto. O perigo é a teorização da “onda conservadora”, e se tal caracterização fosse verdadeira seria um retrocesso para a Esquerda. Não vejo a população na Rússia no início do século XX, onde muitos eram analfabetos e a grande maioria camponeses, sendo totalmente progressista, sem preconceitos e lutando conscientemente, desde o início, pela Revolução Socialista. São etapas na consciência dos trabalhadores que vão evoluindo conforme suas realidades e condições materiais, que com a crise aumenta a consciência de classe e precariza ainda mais o trabalho e as condições de vida.
Serve de análise o que o professor Valério Arcary publicou no Facebook: “(...) Mas é difícil sustentar que o Brasil ficou mais “conservador” depois das eleições. Não é o que refletem as pesquisas especializadas mais sérias. O Brasil, como de resto todas as sociedades que fizeram a transição do mundo rural para o urbano, tardiamente, sempre foi mais conservador nos temas dos costumes que nos temas econômico-sociais. Em outras palavras, em temas como a descriminalização do consumo de drogas, legalização do aborto, pena de morte, igualdade civil de matrimônios entre homossexuais, e tantos outros, prevalece ainda uma resistência cultural arcaica. Já nos temas que remetem à luta por direitos e igualdade social, como salário igual para trabalho igual, seguro contra o desemprego, universalização e gratuidade da educação, saúde e transporte, ou o papel do Estado na economia, como as privatizações, a imensa maioria do povo se inclina por propostas progressivas. Este quadro não mudou (...)”.
O fato é que as massas são conservadoras. E isso não mudou de um ano para o outro. O que está em disputa é seu lado progressivo e não cultural. Em um dia de panfletagem no centro de Criciúma foi visível que Arcary tem razão. Quantas pessoas ali reproduzem machismo, racismo ou homofobia? Mas quando falávamos em lutar contra o PT e o PSDB, contra o ajuste fiscal e a crise que afetam o nosso dia a dia e até em construir uma greve geral, geralmente, as pessoas foram sensíveis e paravam para dialogar.
Fazer agitação de “onda conservadora” é estratégia petista. Junto colam um possível “golpe da direita”. Como a burguesia aplicaria um golpe contra um governo que faz tudo que ela deseja? Pode ser que se inicia um plano para tirar Dilma da presidência, mas isso estaria dentro dos marcos da institucionalidade da democracia burguesa. Sem parecer que estariam fragilizando nosso fraco sistema político. Isso ocorreria mais para relaxar os ânimos das massas, não com o foco caçar o PT. São motivos de sobra para máquinas sindicais burocráticas como a CUT e Força Sindical romperem com esse governo. Também movimentos populares e estudantis que ainda acreditam no PT, como MST e UNE. Setores que tomaram notoriedade, como o PSOL e o MTST, não podem dar sustentação para um partido indefensável, por “direitos contra a direita”, com base nessas agitações de “golpe” e “onda conservadora”, a burguesia e o atrelamento ao imperialismo nunca saíram do Palácio do Planalto em Brasília.
Devemos, podemos e o momento é favorável para construirmos uma terceira força política. Que não seja Lula ou Marina Silva e nem que esteja comprometida apenas com a agenda eleitoral. Que seja oposição de verdade, que seja Esquerda de verdade. Atacando de forma rígida toda e qualquer manifestação e mentira da Direita, mas sem esquecer de apontar os erros e o falido projeto petista. Esse campo deve ser construído nas lutas e nas greves que surgem a cada dia, em organizações democráticas e independentes, sem aceitar um tostão de patrões, banqueiros ou governo. É esse o caminho para, a cada passo, derrotar toda forma de exploração e opressão e desenvolver o caminho para o Socialismo no Brasil e no mundo.
NOTAS:
[1] - http://blogconvergencia.org/?p=3011
[2] - http://blogconvergencia.org/?p=3580